As Crônicas de Gelo e Fogo & A Roda do Tempo: devemos comparar?


Imagem relacionadaResultado de imagem para wheel of time logo


Eu já vinha tentando pensar sobre um post deste tipo faz algum tempo, mas há uns dias me inspirei por conta de um vídeo do youtuber Daniel Greene, que tem um canal quase que totalmente focado em A Roda do Tempo, que me fez estruturar melhor meus pensamentos sobre as duas obras e como falar delas em uma mesma postagem (link do vídeo, que é ótimo: https://www.youtube.com/watch?v=oYVck1-Wtg8). Uma observação: de ambas as sagas eu só li os 5 primeiros livros, de uma por razões óbvias, e da outra porque a vida não me permitiu ler seus 14 volumes tão rápido.

Portanto: devemos comparar as duas sagas? (pra facilitar a minha vida vou substituir Crônicas por ASOIAF e Roda por WOT) A resposta mais sensata, ao meu ver, é não. Mas há pessoas que as comparem, e também compreendo as suas razões. A questão é que elas são fundamentalmente diferentes entre si e representam dois lados, não diria opostos, mas que usam abordagens diferentes pra contar suas histórias. O que quero apresentar são alguns tópicos (com micro menções ao enredo de cada saga. Na minha opinião nem são spoilers) que, ao invés de comparação, serão uma demonstração de como as duas histórias lidam com certos temas e como eles se bastam em si próprios, e que não deveríamos buscar numa o que "falta" na outra. Por isso vamos ao primeiro:

- O TOM

ASOAIF e WOT representam dois tipos de histórias que às vezes parecem totalmente diferentes, e são, quando se olha pra macro-trama: na primeira temos a competição voraz pelo governo de um continente entre as casas nobres do reino e seus aliados, enquanto uma ameaça sobrenatural se aproxima para pegar (quase) todos de surpresa; na segunda, vemos a ascensão das forças sombrias do caos pelo mundo até que o salvador escolhido ressurge, mas ele mesmo pode causar a destruição suprema dos povos. 
WOT nos traz a clássica história do escolhido que irá salvar o mundo, mas Jordan realmente abraçou essa ideia e aumentou a escala e a magnitude dos acontecimentos que tudo é muito impressionante e verdadeiramente épico, a própria mitologia base daquele universo gira em torno (já diria o título) de padrões e tramas que periodicamente selecionam um salvador. Rand é um escolhido atormentado e extremamente poderoso que constantemente luta contra a loucura. A genialidade do autor foi abraçar esses elementos e construir uma história de grandiosas escalas, que me faz constantemente pensar no destino do mundo e ansiar pela Última Batalha. Tudo é incrivelmente épico em WOT, e isso deu margem para que o Jordan se aproveitasse disso de modo a detalhar ao máximo a história daquele mundo.

Já ASOAIF se propõe a ser mais "pé no chão" que a fantasia épica no estilo Tolkien. As tramas sobrenaturais são relegadas ao segundo plano num primeiro momento, o foco está nas maquinações políticas e nas trajetórias dos personagens rumo (ou não) a seus objetivos. O universo do Martin tem muito peso e realismo porque as ações têm consequências impactantes e os personagens não estão a salvo, e nada disso é feito para simplesmente chocar, mas sim para deixar o leitor atento e aflito. É difícil dizer quem é o personagem principal e pouquíssimos deles têm um arco mais tradicional de herói, eu diria que apenas Bran e Daenerys se aproximam de heróis mais clássicos. A narrativa mais sombria e cínica do Martin contribui para a construção de um mundo duro e impiedoso.

Eu afirmaria que, enquanto Jordan expande até o último grau a sensação de épico que uma fantasia pode ter, Martin procura escrever quase uma ficção histórica com alguns elementos sobrenaturais. Mas atenção: essas características muitas vezes trocam de lugar nas obras. Jordan também foge de vários elementos "clichês" da fantasia, enquanto Martin também consegue tecer uma narrativa épica e mágica. É apenas uma questão de se aprofundar nas obras pra poder ver esses aspectos brilharem. Atualmente me parece que as obras de fantasia estão se mostrando mais ricas por unirem esses dois elementos: realismo e epicicidade (ok, essa não é uma palavra real), e que bom que estão, mas não quer dizer que esses dois gigantes sejam apenas esses polos opostos. O diferença de tom, no entanto, é inegável. 

- A ESTRUTURA

Já as estruturas das obras são bem diferentes, e o que entendo por estrutura? É o modo como o texto se apresenta nos livros, como são os capítulos? Quem narra? Há outro texto além da narrativa per se? Comecemos com ASOIAF, que tem o estilo mais duro e previsível. A história é exclusivamente contada por capítulos do ponto de vista de certos personagens predeterminados, sempre um prólogo, e de vez em quando ganhamos um epílogo. O Martin já afirmou que não teremos novos personagens com ponto de vista no próximo livro, então essa construção meio que já nos faz especular que tramas estarão no livro e de que modo elas podem se desenrolar, deixando a especulação mais direcionada, mas ao mesmo tempo, agora que vários dos pontos de vista se encontrarão nos livros, ficamos apreensivos pra saber quem será o foco narrativo de certas cenas, o que faz toda a diferença, já que é a visão daquele personagem específico que vai ditar o tom dos acontecimentos. 

Em WOT, por outro lado, basicamente qualquer personagem pode se tornar um ponto de vista, e os capítulos têm títulos, ao invés de nomes. De barqueiros que parecem desimportantes a rainhas e Abandonados, Jordan pretende ser mais fluído na hora de escolher os focos, nos mostrando sempre o que ocorre em dezenas de partes do mundo. Temos também vários textos de profecias que integram a história, dando um ar super poético ao título de cada livro e à história do universo.

Pessoalmente, eu prefiro o estilo do Martin, pois sempre tenho a sensação de que muito mais está ocorrendo no mundo e simplesmente não temos noção nenhuma disso! Ficamos no mistério totalmente, e cada personagem é muito bem escolhido para se tornar um ponto de vista, tendo um arco de desenvolvimento bem construído. Já com o do Jordan, às vezes personagens nada interessantes se tornam o foco apenas por um breve momento, e me pego ficando confuso tentando entender quem é aquela pessoa e como ela se encaixa na trama. Um ponto positivo é que praticamente todo mundo (tirando o Tenebroso [até onde li!]) tem sua chance de conduzir a narrativa, portanto satisfaz a angústia que passo em ASOIAF de saber que nunca verei um ponto de vista de certos personagens que muito me interessam.

Outra diferença que diz muito sobre as duas histórias é que em ASOIAF temos um apêndice, com nomes dos personagens e a história de suas casas e afiliados, e em WOT, um glossário de termos mágicos, raças, instituições, artefatos etc; o que nos traz novamente ao macro-enredo: disputa entre famílias com ares quase de ficção histórica & mundo fantástico que extrapola tudo que conhecemos.

São ótimos exemplos de estilos narrativos em terceira pessoa que cumprem seu papel de maneira eficiente: um quer causar mistério deixando a narração mais contida e intimista, o outro quer mostrar inúmeras perspectivas daquele mundo pra poder expandir ao máximo a trama.

- A MAGIA

Um dos aspectos crucias na maioria das histórias de fantasia é o sistema de magia que governa um determinado mundo. E aqui creio que seja seguro dizer que ASOIAF e WOT são dois extremos de como se pode abordar a magia nessas narrativas.

Em WOT, vemos o famoso sistema de magia com tudo que se tem direito: raios, fogos, rajadas de energia, portais, teletransporte, outros mundos etc. A magia é reconhecida pelos habitantes, de todas as classes. Pode ser que não seja compreendida por todo o mundo, e algumas criaturas sejam relegadas às lendas, mas ela é um fato e o Poder Único é o principal instrumento que as Aes Sedai têm para exercer poder e influência sobre as nações.

No outro extremo temos a magia decadente, desconhecida e custosa do mundo de ASOIAF. Desde a morte dos dragões Targaryen, o elemento mágico do mundo parece estar em derrocada, e mesmo naqueles tempos a magia não envolvia pirotecnia ou teletransportes. Só a morte pode pagar pela vida é quase um conceito universal para os habitantes do mundo de gelo e fogo, e magia de sangue é o tipo mais eficaz que se conhece. Tudo que envolve magia tem um custo muito alto, portanto as pessoas preferem não mencioná-la, considerá-la tabu em suas culturas, como fazem os dothraki, ou tentam bani-la, como se supõe que os meistres tentam fazer.

É óbvio que isso não significa que a magia em WOT seja fácil ou ilimitada. Rand está a todo momento se segurando pra não ser contaminado pela mácula de saidin, e as Aes Sedai se exaurem muitas vezes por tocarem de mais a Fonte Verdadeira. Os sistemas de magia são bem opostos e mostram o quão ricas podem ser as abordagens ao sobrenatural. Ao mesmo tempo que me atrai muito a atmosfera incerta e caótica de ASOIAF, curto bastante (mesmo) a capacidade do Jordan em criar dezenas de conceitos originais pra como seu mundo funciona. E sempre fico empolgado quando alguém usa o fogo devastador.

CONCLUSÃO

Enfim, tendo visto isso tudo, em ambas as sagas há muito que se aprender sobre como as histórias de fantasia podem ser riquíssimas e tão díspares entre si, isso por que só abordei três fatores dentre inúmeros que poderiam ser explorados mais a fundo, como a temática ou as profecias. Tudo isso pode ser feito sem necessidade de comparar as duas, de rivalizá-las. É fato que, na hora das preferências pessoais, uma se sobressai em relação à outra na visão particular de cada um, mas elas estão aí pra ser apreciadas e reconhecidas como obras-primas do gênero.

Espero poder escrever mais sobre as duas quando ASOIAF estiver completa e eu terminar de ler WOT.


Comentários

Postagens mais visitadas