As genialidades de Justiça ancilar
O termo espetacular creio que se aproxime muito do que é esse livro de Ann Leckie. A história de Breq, última "funcionária" (descubra o porquê das aspas lendo) da antiga nave militar Justiça de Toren, é uma história com um mote tradicional de vingança, mas tudo o mais no livro não tem nada tradicional.
O modo como o enredo é construído é complexo e por diversas vezes fiquei com um nó na cabeça tentando compreender quem eram aquelas personagens e o que aquela situação específica queria dizer. Mas isso é que dá genialidade à história. Quando as peças começam a se juntar e você obtém mais informações sobre o universo do Império Radch, a recompensa vale todo o esforço. Não se assuste, as coisas vão fazer sentido!
A galáxia dominada pela tenebrosa Senhora do Radch, apesar de estar num livro relativamente curto, é riquíssima e cheia de características que quero MUITO ver como se desenvolvem nos próximos volumes da trilogia. Não deixa nada a desejar em relação a grandes obras extensas de ficção científica ou de fantasia. Das grandes naves de guerra milenares às tecnologias fascinantes do império (e de seus inimigos) e à questão linguística do livro, tudo é amplo e inquietante.
É uma trama super intrincada que discute de uma maneira nada superficial questões sobre escravidão e inteligência artificial, domínio imperial e legitimidade política. O Império Radch é brutal na sua conquista de povos e planetas, e apesar disso, a autora nos mostra vários lados nessas conquistas; há aquelas que lutam contra a dominação, aquelas que se aliam aos conquistadores, aquelas que estão mais preocupadas com conflitos locais do que com a ameaça externa, explorando a realidade como a observamos durante a história do nosso próprio planeta, como por exemplo foi a expansão dos antigos romanos e assimilação/adaptação de outras culturas em seu império. Há muito mais que dominadoras e dominadas.
O recurso linguístico usado pela autora (de utilizar apenas o pronome feminino she durante o livro, já que o idioma de Breq não denota gêneros) trouxe ainda mais impacto na sua versão em português. Veja bem, a autora, no original, manteve certas palavras em sua forma masculina, como lord ou priest, por acreditar que suas versões femininas tragam outros significados que ela não queria ver ligados àqueles termos. Em português, tudo está no feminino, o eles indeterminado vira elas, os adjetivos estão todos em a e por aí vamos. Creio que o resultado final ficou interessantíssimo. Por vezes me pegava imaginando as personagens como mulheres, mas aí me lembrava da proposta do romance, e então uma imagem meio andrógina delas se formava na minha mente.
É interesse notar que no livro é a nossa personagem principal, diferentemente do que vemos em A mão esquerda da escuridão por exemplo, que traz "inovações"(já que há muitas línguas na Terra que não distinguem gênero) no sentido de como a sua sociedade aborda o gênero, em meio a outras que de fato usam gênero em suas línguas. Em A mão, é a protagonista parecida com a gente que vai a uma cultura diferente da nossa; em Justiça ancilar, é a protagonista com conceitos diferentes que está imersa em outras culturas que marcam o gênero na linguagem (menos quando ela está em contato com as radchaai, claro). É um contraponto inteligente àquele clichê de "personagem próxima a nós que adentra um mundo novo e desconhecido para ajudar a leitora a se ambientar", aqui é a personagem de fora que acompanhamos e que entra em contato com pessoas mais parecidas conosco. E Ann Leckie faz muito bem o serviço.
Enfim, é um livro muito intrigante e incrivelmente bem escrito e amarrado. Com certeza é daqueles que uma releitura ao terminar a saga vai revelar detalhes ocultos. É genial. Tomara que a Editora Aleph consiga trazer o resto da trilogia. L E I A M


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